-espaço-tempo-vestimenta para repensar gênero e tecnologia
para os movimenos pós-socialistas a demonstração de igualdade não é mais do que a condição de abertura a um devir, a processos de subjetivação heterogêneos. nos movimentos das mulhres, depois da primeira fase de aformação da igualdade invocada por rancière, abre-se um debate sobre os limites dos conceitos de gẽnero e dediferença dos sexos (...) começam a desenvolver-se práticas de multiplicação de identidades, mutantes, que se abrem a múltiplos devires, a um devir-mosntro, uma atualização dos "mil sexos" moleculares: lésbicas, transgêneros, mulheres de cor, gays... a "crítica feminista do feminismo" ao se encontrar com o pensamento pós-colonial e com o pensamento das muçheres de cor, passa a concentrar-se na desconstrução do sujeito "mulher", saindo assim daarmadilha dos dosi mundos (masculino/feminino) aprisionados em um só (heterosexualidade). os "sujeitos excêntricos" (teresa de lauretis), as "identidades fraturadas" (donna harraway), os "sujeitos nômades" (rosi braidotti) pensam e praticam a articulação entre a diferença e repetição a partir do ponto em que rancière parou.
o conceito de gênero e diferença entre os sexos do primeiro feminismo, construídos sob a lógica da "demosntração de igualdade", não são mais suficientes, criando até obstáculos à compreensão das "relações de poder que se (re)produziriam e se (re)produzem mesmo no interior do mundo das mulheres; relações que gram opressão entre mulheres e entre categorias de mulheres, que ocultam ou reprimem as diferenças intrínsecas a um grupo de mulheres ou mesmo no interior de cada uma delas" (teresa de lauretis).
as mulheres não constituem uma "classe" que se funde as diferenças em um sujeito coletivo totalizado, mas são uma multiplicidade, um patchwork, um todo distributivo. "nossa sobrevivência requer que contribuamos com todas as forças para a destruição de classe - as mulheres - (...) somos trânsfugas de nossa classe, da mesma maneira que os escravos negros americanos o eram quando fugiam da escravidão..." (monique wittig). arriscamo-nos a cair na armadilha do "mito da mulher". diz wittig, da mesma maneira como o movimento operário caiu no mito da classe.
o que as feministas nomeiam como lógica e prática pós-identitária é a construção de uma pertença que não seja mais uma atribuição identitária; conclamam, assim, um engajamento no plano do "devir". (...) as práticas pós-feministas dizem: não sabemos o que pode um corpo, mas podemos convocar suas forças e virtualidades através dos dispositivos, dos enunciados, das técnicas que ao construir os agenciamentos, interpelam este corpo, fazendo-o entrar na esfera das "perguntas e respostas".
desse ponto de vista, a política consiste em por a prova em fazer experimentações, retomando o vocabulário do pragmatismo. a política não é apenas a mobilização da necessidade de estar contra, como também não é somente definição de "constantes" e de "invariantes" de estar junto. tanto a necessidade de engajamento quanto a ação em prol da igualdade devem subordinar-se a uma política do acontecimento,a uma política do devir, uma política concebida como experimentação - instituições falhas, móveis, excêntricas, tão fraturadas quanto os devires que irão favorecer.
(...) esta é a radicalidade dos comportamentos políticos contemporâneos: fazem emergir a oposição, o antagonismo entre dos tipos de instituições: as que criam e reproduzem o modelo, a escala, e a medida de uma maioria; e as instituições que criam e repetem as condições da política como experimentação, como empoderamento, como devir..
nas sociedades de controle nos confrontamos com uma diversidade de modelos majoritários ("o homem branco, cristão, macho e adulto que vive em cidades européias ou estadunidenses de hoje"; telespectadores de programas de audiência; assalariados etc) ativados e em funcionamento nos mais diferentes domínios da sociedade humana. são todos nomes de uma "maioria", que não é uma quantidade maior mas antes de mais nada uma escala segundo a qual outras quantidades serão medidas e serão consideradas menores.
a "minoria", em contrapartida, designa um desejo, ou seja, o movimento de um grupo que seja qual for seu número é excluído pela maioria que criou um padrão de medida que faz a lei e fixa a maioria. (...) as mulheres nunca deixarão de ser dominadas enquanto não se tornarem minoria, ou seja, multiplicidades não subordinadas a um princípio majoritário. elas não se emanciparão se estiverem reduzidas, mesmo que se revoltem, à identidade mjoritária de um "segundo sexo". para sua emancipação é preciso que as mulheres se engajem em uma multiplicidade de devires-mulheres. uma maioria não coincide jamais com a multiplicidade que forma o "para todos" do devir minoritário. o que é "universal", o que é verdadeiramente "para todos", é o próprio devir minoritário. é somente uma infinita variação das modalidades de subtração dos modelos majoritários que podemos enocntrar a multiplicidade em ação.
as instituições estatais pensam os direitos para todos como dispositivos de atribuição de identidades, e portanto objetivamente totalitários, dispositivos que acabm reproduzindo e sistematicamente mantendo a dislética integração/exclusão: em relação a uma maioria, só podemos nos integrar ou sermos excluídos.
a outra forma de compreender e praticar o "para todos" emerge nas lutas contemporâneas, no interior do movimento das mulheres e de certos componentes da mobilização contra a globalização neoliberal - criam desvios, recortes no molar, a partir do molecular, constróem uma tensão entre o macro e o micro que ao serem construídos como problema, criam as condições de transformação e experimentação das relações de poder que os constituem.(...) para o movimento pós-feminista, a política é a manifestação do dissenso, mas não como crise e sim como construção de uma multiplicidade de mundos, uma bifurcação de uma série de incompossíveis em um mesmo mundo.
no espaço político tradicional do ocidente só podemos afirmar identidade e igualdade (somos mulheres e somos iguais aos homens). mas a igualdade sem a proliferação de mundos possíveis torna-se um instrumento poderoso de integração identidária e unitária. para ser verdadeiramente emancipatória, a reinvidicação de igualdade deve submeter-se à política da diferença, a invenção e efetuação da multiplicidade de mundos, do devir outro, conflitual, das subjetividades.
a igualdade como premissa da diferença.
"as revoluções do capitalismo" maurizio lazzarato. ed. civilização brasileira, 2006 pag. 209-218