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Revista se retrata!!!

Submitted by magaly on Sex, 10/10/2008 - 20:41.

Tai, na frente do lance, não deixou para depois e zás! postou a lamentável cena protagonizada pelo colunista da Revista TRIP.

Cena essa muito bem definida pelo comentário:

Estupro mas não mato | 10/10/2008
E o prêmio Maníaco do Parque vai para Goldman!!! O homem que vê o estupro como uma ida ao banheiro... Naturalidade.... Passa o sal por favor.... Agora passa a empregadinha ensanguentada e coberta de sêmen... Sou burguês, acho que a trip faz jornalismo e estupro mas não mato!!!

Foram tantos os posts nos comentários da coluna que a revista teve que se retratar e admitir que o gol foi contra, que a vida é mais do que mal-traçadas linhas e que a autodeterminação sexual de nós mulheres não pode ser jogada, assim, sem mais, na lata do lixo. Mesmo textos ficcionais tem o seu lugar e suas regras que estabelecem o ambiente ficcional. O texto da coluna não é nem literatura, nem impertinência intelectual. É apenas mais uma cena desagradável de um país que vê a tortura como um recurso legítimo para a manutenção da ordem social...

A repercussão foi tão ruim, tão ruim que leitores começaram ameaçar a escrever para os patrocinadores da revista:

luisas | 10/10/2008
já sei de Manifesto de Repúdio coletivo rolando na internet....isso vai chegar as empresas....certeza...

A revista se retratou e o colunista (cineasta filmando a vida de Jean Charles) retirou a frase infeliz (ser mais jeitosinho com as mulheres) do final do texto. No entanto, o estrago já foi feito.

mel | 10/10/2008
*Henrique Goldman, 46, cineasta paulistano radicado em Londres, acha que Nelson Rodrigues é light para nossos tempos. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br Essa é nota de rodapé do genio, da TRIP que escreveu o texto:
Benditas águas pútridas Insatisfeito com sua vida perfeita, nosso herói chafurda na lama em um puteiro barato para sentir-se vivo novamente. Pelo visto o mau gosto desse sujeito é algo de longa data. Basta ver os arquivos da TRIP. Em relação a editora sugiro e-mails para os anunciantes. Quebrar o bolso nos dias de hoje faz muita diferença. Em relação ao "colunista" uma larga campanha pela net, divulgando seus "belos textos" pode ser uma estratégia para desmarcarar o talento desse gênio.

Esses foram comentários inteligentes, na ponta do lance. No entanto, houve igualmente um número, bastante assustador, de comentários de cunho racista (Goldman é judeu), misógeno (com claras posições contrárias aos direitos sexuais das mulheres) e classista (pobre não é gente).

Outro fator a ser levado em conta é como o ativismo digital, organizado ou aleatório, pode pressionar, para o bem e para o mal, a esfera pública. Se, por um lado, estamos falando de uma "auto-confissão" de estupro feito numa linguagem de mal gosto, de outro, nos queixamos quando grupos conservadores, em sua maioria expressando uma moralidade de cunho religioso forte e intolerante, pressiona contra conteúdos e políticas laicas. Há muito o que se analisar deste caso realmente.

Observem que a Trip em sua retratação se dá conta que assunto de tal gravidade não deve ser tratado com leviandade. Isso me faz lembrar a campanha das mulheres negras por conta da mini-série sobre JK da Rede Globo. Elas denunciavam a forma como as mulheres, especialmente uma mulher negra, era ficcionalizada. As personagens empregadas domésticas eram brutalmente violentadas pelo patrão, especialmente uma delas que era negra. A TRIP não é a Globo, logo providências foram tomadas mais rapidamente...

Contudo quero deixar claro que a ficção pode e deve tratar dos temas da vida social, das mazelas humanas. Excelentes obras de arte foram feitas tomando como tema a crueza dos sentimentos humanos mais vis e mesquinhos. Repito: obras de arte. Colunas de jornal e revistas não são crônicas literárias, são produtos jornalísticos e, portanto, os gêneros discursivos não devem ser confundidos. A realidade é dura e esse é o motivo da indgnação que o texto provocou.

Abaixo a resposta da TRIP e do colunista.

Resposta aos leitores

Trip esclarece o que deveria ter ficado claro já na publicação da coluna “Mundo Livre” da edição de setembro: trata-se de um texto de ficção, um recurso usado com freqüência pelo colunista Henrique Goldman.

Pedimos desculpas por não ter apontado o caráter ficcional do texto “Carta Aberta para uma Luisa”. E, ainda, pelo desastrado pé biográfico (já corrigido). As duas atitudes conferiram, involuntariamente, um tom leviano a um assunto que não pode nem deve ser tratado levianamente – seja como ficção ou como realidade.

Trip considera inaceitável qualquer forma de assédio ou violência sexual.

Henrique Goldman, conforme seu depoimento abaixo, nunca cometeu abuso sexual, nunca teve uma empregada doméstica chamada Luisa nem colegas Sheilinha e Adalberto.

Mas, lamentavelmente, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Assédio e violência sexual são crimes freqüentes no Brasil.

Como tais, devem ser repelidos, denunciados, combatidos e debatidos. Como Goldman escreve, “Só me permito lembrar – lavando panos sujos assim tão publicamente – porque o mundo é cheio de Luisas”.

E, vale completar, cheio de abusadores de Luisas. Muitos deles, impunes. Os atos desses abusadores merecem, sempre, a aversão e a repulsa da Trip.

Nota de Henrique Goldman

“Prezados leitores,

Antes de mais de nada, preciso esclarecer algo: nunca estuprei ninguém na minha vida. Nunca tive uma empregada chamada Luisa, e nem estudei com qualquer Sheilinha ou Adalberto. Meu único ‘crime’ foi ter feito um texto ficcional sem deixar isso claro. Estou muito abalado com tantas mensagens agressivas que recebi. Me arrependo muito de ter criado este mal-entendido num mundo já tão cheio de merda e incompreensão. Posso ser um puta chato, péssimo colunista e pensador ordinário, mas não seria capaz de cometer crime algum, muito menos um tão hediondo. Me desculpo também com os editores da Trip por qualquer transtorno.”

Henrique Goldman

Posted in Submitted by magaly on Sex, 10/10/2008 - 20:41.

fabs | Sáb, 11/10/2008 - 19:24

Mata | 11/10/2008
O colunista em questão fez uma abordagem leviana do estupro. Ao escrever, por exemplo, "Espero que para você a memória daquela tarde não seja tão ruim e que você hoje possa rir do que aconteceu", o colunista deixa nas entrelinhas que o estupro pode ser visto como um ato natural, como aquelas brigas entre amigos que podem ser facilmente esquecidas. O problema não é abordar o tema do estupro, mas ignorar o senso crítico ao abordá-lo.

helena | 11/10/2008
fiquei tão chocada com a "ficção" quanto com as mulheres que defenderam o autor aqui em alguns comentários ... "repararam que o cara não fala em estupro", disse uma; e por acaso "TRANSAR CONTRA A VONTADE" não é estupro minha filha? tão triste qto ver um texto desse publicado numa revista do tamanho da trip é ver esse tipo de reação de mulher que provavelmente acha que feminismo é palavrão... estou enojada, como será q a Mariela (q fez o comentário) se sentiria se ela fosse estuprada e dissessem q ela pediu isso, que não na verdade significa sim, que na verdade ela queria mesmo (como disse uma outra mulher aqui)... e depois o estuprador pedisse desculpas pra ela, será q ela riria disso ao se lembrar?

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